Monday, January 18, 2010

"A Universidade deve assumir-se como o local onde nascem as novas indústrias”

Esta é a opinião de António Câmara, CEO da YDreams e professor na Universidade Nova de Lisboa. Defende que para que isso aconteça é necessário que os estudantes sejam formados para serem empreendedores e não empregados. “A missão da universidade em Portugal é a de criar novas indústrias, porque a esmagadora maioria da indústria portuguesa não tem nem a liquidez nem os interlocutores necessários para dialogarem com os grupos universitários”, refere. E explica que “criámos a YDreams porque chegámos à conclusão que só chegávamos ao mercado sendo nós próprios indústria”. António Câmara foi Visiting Professor na Cornell University (1988-89) e no MIT(1998-99). Foi Senior Consultant no projecto Expo98 e Senior Advisor no Sistema Nacional de Informação Geográfica. Recentemente publicou o livro “O Futuro Inventa-se”, onde reflecte sobre o papel da nova universidade na formação de cidadãos empreendedores.
I&E - A educação que damos aos nossos jovens, fá-los procurar a comodidade e o refúgio de um emprego seguro. Concorda com esta afirmação? Que mudanças culturais e no nosso ensino deverão ocorrer para afastar o estigma do fracasso e dessa forma a sociedade como um todo possa promover o empreendedorismo?
AC - Não é só a educação. A sociedade portuguesa é avessa ao risco e condena socialmente o fracasso. Um dos problemas graves na nossa formação é o acesso limitado da juventude á prática desportiva competitiva. Odesporto de competição é a melhor escola para aprender a arriscar, ganhar e perder. Faltam depois exemplos de sucessos globais que começaram por ser insucessos, pelo simples motivo que ainda não temos uma única empresa bem sucedida mundialmente.
I&E - No mundo existem mais do que 4,2 milhões de patentes por aplicar, e um sem número de artigos científicos publicados, que não resolveram na prática nenhum problema novo, e que não passarão nunca das revistas para a sociedade ou ao mercado. Concorda que as universidades e os centros de conhecimento terão que colocar o enfoque na geração de conhecimentos que sejam socialmente aplicáveis?
AC - Em investigação há duas abordagens defensáveis: a investigação baseada na curiosidade sem objectivos directos de aplicação e a investigação dirigida para o desenvolvimento de soluções aplicáveis (tipo “Homem na Lua”). Tem que haver investigação do primeiro tipo porque os resultados podem ser extremamente úteis a prazo, pelo que não nos devemos limitar ao segundo tipo de projectos que, aliás, muitas vezes, não produzem soluções aplicáveis.
I&E - Defende a criação de empresas criadas por professores e estudantes universitários. A YDreams surgiu dentro deste espírito, que balanço faz deste projecto?
AC - Estou certo que vai ser evidente para todos o balanço fantástico destes dez anos. Estes são alguns exemplos: realizámos recentemente a maior experiência interactiva da história com 20 mil pessoas em Lyon num projecto da nossa participada Audience Entertainment para a Orange, vamos apresentar, em breve, um dos principais projectos interactivos da história para a Cidade Financeira do Banco Santander em Madrid, vamos apresentar no próximo Consumer Electronics Show um software revolucionário para a interacção com a televisão, vamos apresentar no próximo ano exemplos únicos de interactividade em papel. Nestes dez anos, realizámos mais de 600 projectos em 25 países. Vendemos centenas de milhares de jogos em mais de cinquenta países. AYDreams foi tema de artigos e reportagens na Wired, Business Week, Economist, New York Times, El País, Liberation, Guardian, CNBC Europe, CNN, Fox e France 24, entre muitos outros locais. Aempresa é apontada como uma das líderes mundiais em realidade aumentada, uma das “next big things” em tecnologia. Mas o que mais me tocou, nestes dez anos, foi ler um dia um email de um jovem estudante de informática, dizendo que nós somos uma inspiração para todos os jovens portugueses que querem ter impacto no mundo. EMails como esse dão-nos a força necessária para ultrapassarmos todas as dificuldades. Esperamos sinceramente já em 2010 ter um impacto verdadeiramente global.
I&E - Os Instrumentos/modelo de financiamento à investigação vigente é o adequado para a promoção da investigação e da Transferência Tecnológica das Universidades e centros tecnoló-gicos para o mercado?
AC – O único problema com o financiamento da investigação em Portugal e na Europa tem a ver com o tempo que, por vezes, medeia entre as candidaturas e os pagamentos das primeiras prestações. Mas de uma forma geral não tenho a mínima queixa. Nos EUA é incomparavelmente mais difícil ser financiado (as taxas de aprovação são de 3% comparando com 10 a 20% em Portugal e na Europa).
I&E - A redução da dotação orçamental do Estado para as universidades poderá contribuir para que estas se voltem mais para as empresas?
AC - Sem dúvida.

[João Mendes, in Inovação e Empreendedorismo, Janeiro de 2010]