Thursday, April 8, 2010

“Universidades Europeias estão a perder a batalha pelo talento”

A Europa está a perder a batalha pelo talento, afirmou o Presidente da Universidade de Maastricht, Jozef Ritzen, em entrevista à “Inovação e Empreendedorismo”. “Estatísticas recentes são conclusivas. Nas primeiras 40 posições do ranking “Times Higher Education Supplement”, a Europa (excluindo o Reino Unido) é representada por apenas duas instituições, enquanto a América do Norte está representada por 20”, explica Jozef Ritzen, salientando que “em 2005, os estudantes da Europa (excluindo o Reino Unido) que iam estudar na América do Norte eram cerca de quatro vezes mais do que os estudantes que se deslocavam no sentido oposto”. Quanto à atractividade das universidades, sublinha que “as Universidades americanas são mais atraentes, as universidades do Leste da Ásia (exceptuando as japonesas) estão mais preocupadas em dar resposta à procura local do que com a atracção de estudantes estrangeiros. Ainda assim, estão a crescer muito rapidamente, também em termos de qualidade.”

Jozef Ritzen foi Ministro da Educação da Holanda e vice-presidente do World Bank’s Development Economics Department. Para breve está a publicação do livro “A Chance for European Universities”, onde reflecte sobre as necessidades de reforma do ensino superior europeu e sobre o papel da nova universidade na Europa.

I&E – O que podem fazer as universidades europeias pela Europa?
JR – As universidades podem oferecer à Europa um grande prémio e ajudarem a evitar uma perda substancial. O ganho é alcançar o sonho europeu tornado possível pelas gerações passadas. As universidades estão a educar as pessoas que irão transformar um espaço económico unificado num continente estimulante. A capacidade de lidar com novas tecnologias e com culturas estrangeiras é fundamental para este sonho. E isto é exactamente o que as universidades internacionais e inovadoras desenvolvem nas pessoas. Por outro lado, paira uma nuvem negra sobre a economia europeia (e sobre outras economias industrializadas do mundo), por causa do declínio da natalidade e a consequente diminuição esperada do capital humano. As universidades têm o potencial para atenuarem essa perda ao atrair jovens talentos do exterior para estudar e trabalhar durante algum tempo na Europa. Evidentemente, as universidades têm de ser (tornar-se) inovadoras e internacionais para serem capazes de atrair estudantes estrangeiros. Assim, a pergunta poderia ser formulada doutra forma: o que pode fazer a Europa sem as universidades europeias?

I&E – Tem defendido melhorias nos sistemas de educação universitária na Europa. Como podem as universidades europeias tornar-se mais bem sucedidas? O que pode tornar as universidades melhores?
JR – Sem dinheiro, não há topo. Um olhar sobre os orçamentos das universidades com altas posições no ranking mostra que, sem um orçamento considerável, é difícil (senão impossível) ser uma universidade de classe mundial. Depois, a autonomia e a responsabilidade. Lembro-me que, como ministro, era difícil dar autonomia ao ensino superior. Mas era o mais inteligente, conforme me diz a minha posterior experiência como presidente da Universidade de Maastricht. Respondendo directamente aos estudantes e ao mercado de trabalho, aumenta a atenção das universidades para a inovação e a internacionalização. A um nível “macro”, temos de contornar os sistemas nacionais de ensino superior. Pessoalmente, percebi que os governos nacionais não sentem como uma prioridade fazer da educação superior um problema europeu. As coisas estão agora a mudar com o Processo de Bolonha, mas não tão rapidamente como deveriam.

I&E – Qual o contributo do seu livro “A Chance for European Universities” para atingir esse objectivo?
JR – O que me move é o antigo sonho político de que uma discussão séria pode mudar o curso dos acontecimentos. O livro é parte de um projecto mais amplo, onde o debate é essencial. A análise e os comentários de muitas pessoas apaixonadas e competentes foram integrados no livro enquanto escrevia, e todos são livres de fazer o “download” e comentar o meu livro na www.chanceforuniversities.eu. Com base nesta discussão, será elaborado um manifesto num “meeting” de académicos de topo e de ex-ministros da educação, que se realizará a 16 de Junho. A minha esperança é a de que o livro seja um bom instrumento para informar a opinião pública e os decisores e o manifesto seja um bom meio para acelerar a reforma do ensino superior europeu.

I&E – Temos no mundo cerca de 4,2 milhões de patentes sem serem utilizadas e inúmeros artigos científicos que, em boa verdade, não resolveram nenhum problema novo. Como poderemos alterar esta situação para que o conhecimento gerado pelas universidades possa alcançar o mercado e a sociedade?
JR – Durante muitos séculos, as universidades eram torres de marfim, estando à margem da sociedade. O lema de Von Humboldt “Freiheit der Lehre” (liberdade do saber) foi muitas vezes interpretado como “nenhuma responsabilidade para a investigação”. A oligarquia académica era muito poderosa. Às vezes é difícil para as universidades livrarem-se desses legados. No entanto, um melhor governo (mais autonomia, participação activa das partes interessadas) permite às universidades acompanharem mais de perto as necessidades da sociedade. Os processos de reforma iniciados há décadas em alguns países europeus, por exemplo, na Holanda, após protestos dos estudantes de Amesterdão e de Tilburg, na década de setenta, mostra como um melhor governo pode transformar a torre de marfim “numa instituição dinâmica, que oferece o ensino e a pesquisa necessários à sociedade.

I&E – A Universidade está a fazer o suficiente para chegar à Indústria? Como poderão as universidades europeias ajudar a promover uma cultura inovadora e empreendedora?
JR – Actualmente, as universidades europeias, em geral, não estão a fazer o suficiente na relação universidade-indústria. Mas quando são colocadas em condições adequadas fazem a sua parte. Por exemplo, a Universidade de Maastricht tem acordado com a empresa química DSM e com a província de Limburg, para, em conjunto, converterem uma parte da planta industrial da DSM, em Sittard (Holanda), numa indústria local de investigação. Criaria centenas de empregos altamente qualificados e oportunidades para as empresas. A possibilidade está aberta, por causa da autonomia que actualmente é reconhecida às universidades holandesas. No entanto, ainda há muito trabalho a fazer para libertar os travões que impedem as universidades de realizar projectos ambiciosos como este.

I&E – O Dr. Jo Ritzen acredita que a crise de 2008/2009 é uma excelente oportunidade para uma mudança de paradigma em toda a Europa de forma a promover a excelência, juntamente com a emancipação das novas universidades europeias. Quer comentar?
JR – As crises realçam problemas e acções imediatas. O estado crítico do ensino superior foi completamente revelado pela crise. Tornou-se evidente que um sistema universitário totalmente (ou quase) com financiamento público não é sustentável, especialmente se a dívida pública está a aumentar por outras razões. Mas também um sistema de ensino obsoleto não é sustentável, uma vez que os jovens terminam os seus estudos sem conseguirem ser suficientemente produtivos para o mercado de trabalho. Como resultado, estarão em risco de desemprego, em vez de serem os trabalhadores mais atractivos para as empresas. Espero que, como os problemas foram evidenciados, as acções se sigam.

I&E – Por toda a Europa o financiamento público está a decrescer. Qual é a melhor forma de financiamento na nova universidade?
JR - As propinas são a primeira fonte alternativa de rendimento. As universidades têm que ter a liberdade de cobrar taxas mais elevadas de propinas. É fundamental observar que isso não vá prejudicar a igualdade de oportunidades, se os aumentos nas taxas do curso são acompanhados por aumentos simultâneos nos recursos dedicados a estudantes pobres por meio de um sistema de subsídios e empréstimos. As universidades dos EUA recebem receitas substanciais de doadores e de relações com empresas industriais. Estes ganhos surgem como resultado do desenvolvimento de relacionamentos de longo prazo com parceiros privados. Assim, no curto prazo, é improvável que eles vão desempenhar um papel no financiamento de universidades europeias. Há apenas uma solução: o aumento das propinas (e apoio para estudantes pobres, ao mesmo tempo).

I&E – Como serão as universidades europeias no futuro, daqui a 10 anos?
JR – O optimismo diz-me que as universidades europeias do futuro serão autónomas, inovadoras e profissionais, que irão contribuir para uma Europa vibrante, onde os jovens com ambição, criatividade e talento irão sentir-se bem-vindos, onde haverá abertura para novos conhecimentos e ideias, nas artes, nas ciências e na economia. É claro que o optimismo não é suficiente. Precisamos de medidas imediatas para realizar este sonho.

A Chance for Europeen Universities: interview with Dr. Jozef Ritzen by João Mendes

[João Mendes, in Inovação e Empreendedorismo, Abril de 2010]

0 comentários: