Luíz Sanz, Director Geral da International Association of Science Parks (IASP), desde 1996, considera que as Universidades e as Empresas são parcialmente responsáveis pela reduzida proximidade que existe entre ambas. Salienta que “seria negar a evidência não reconhecer que sempre houve mais resistência do lado académico do que do lado empresarial”, explicando que “a lógica clássica dá-nos o seguinte silogismo: se o conhecimento é hoje o maior activo das empresas, em particular, e da própria sociedade em geral, e se as universidades continuam a ser o maior (embora não o único) produtor do conhecimento, a conclusão é clara: nenhuma sociedade pode dar-se ao luxo de manter Universidades que não se envolvem directa e fortemente no desenvolvimento económico”. Defende que “ao exigir que as Universidades assumam esta nova responsabilidade, também há que exigir às autoridades públicas que dotem as universidades com as ferramentas adequadas para executarem esta tarefa, o que, em muitos casos, significa começar a mudar leis e regulamentos obsoletos que regem as universidades que mais parecem típicas do século XVIII do que do século XXI.”
Acredita que os parques científicos e tecnológicos podem e devem ser facilitadores deste encontro entre a Universidade e as Empresas, o que irá beneficiar não só as duas entidades, mas toda a sociedade.
Acredita que os parques científicos e tecnológicos podem e devem ser facilitadores deste encontro entre a Universidade e as Empresas, o que irá beneficiar não só as duas entidades, mas toda a sociedade.
I&E – O que é a International Association of Science Parks (IASP)? Como surgiu e quais são os seus objectivos?
LS - A IASP foi criada em 1984. É uma associação de âmbito mundial que agrega Parques Científicos, tecnológicos e “tecnopolis” de todo o mundo, bem como incubadoras de empresas de base tecnológica e também outras organizações interessadas no desenvolvimento económico através da inovação e da transferência de tecnologia e conhecimento. As duas principais características da IASP, que a distinguem de outras redes de parques tecnológicos, são: o ser global, actualmente tem cerca de 400 membros em 70 países com a sede central mundial em Espanha; o estar baseada no conhecimento, definindo a nossa estratégia como sendo “Knowledge Leadership Strategy”, considerando que o maior activo que podemos conceber é, precisamente, o conhecimento sobre todos os aspectos que se relacionam com o movimento mundial de parques científicos e tecnológicos.
I&E – Realizou-se recentemente, no Tecmaia, o primeiro de uma série de seminários/workshops sobre “Science and Technology Parks in a mature economy”. Quais foram as principais conclusões do evento?
LS - Em primeiro lugar, o intercâmbio de experiências e de ideias. Pudemos confirmar que os parques científicos e tecnológicos (PTC) são um modelo de localização de empresas altamente inovador (apesar de já terem mais do que 50 anos de existência) e que criou tendências. A vontade de ligar as empresas às universidades, o ter critérios rigorosos na selecção de empresas com base sobretudo na capacidade inovadora e tecnológica, o urbanismo moderno e a qualidade dos espaços, a preocupação pelas questões ambientais (nos parques tecnológicos já actuávamos com uma mentalidade “verde” quando quase ninguém falava no assunto), converteram os PTC na expressão perfeita de como satisfazer as necessidades das empresas na economia do conhecimento.
No workshop do Tecmaia analisamos como o sucesso dos PTC em todo o mundo levou ao aparecimento de outros projectos de solo industrial, os “business parks”, que seguramente reúnem elementos de qualidade muito superior aos tradicionais “polígonos industriais”, mas que não podem nem devem ser confundidos ou equiparados aos parques de ciência e tecnologia. Entendemos que a melhor forma de continuarmos a ser agentes importantes para a promoção da economia do conhecimento é justamente através do reforço dos aspectos do conhecimento, conteúdos, e de elevado valor acrescentado que nos caracterizam. Dito de outra forma, os “business parks” são operações imobiliárias de qualidade, enquanto os parques de ciência e tecnologia são impulsores da inovação e do conhecimento dentro de um projecto que tem um movimento imobiliário, mas que vai muito mais além.
I&E – Que novos desafios se colocam a este tipo de parques?
LS - O de sermos capazes de ter a flexibilidade suficiente (operacional e de gestão, jurídica e também mental) para responder com a velocidade necessária às sucessivas e contínuas mudanças que caracterizam a economia do conhecimento.
O segundo desafio, que é simultaneamente a nossa grande oportunidade, é o de melhorar e aumentar a já elevada capacidade de trabalho nas redes globais. As redes são um multiplicador formidável de recursos e o facto de actuarmos há muitos anos neste tipo de redes é uma das grandes forças dos PTC. O desafio é o de melhorar a sua eficácia, por um lado, e a nossa forma trabalhar em rede, por outro.
I&E – O modelo de financiamento existente é o adequado?
LS - Não existe um modelo único de financiamento dos PTC, por isso não posso responder a essa pergunta de uma forma linear. Mas, em todo caso, podemos observar duas coisas. A primeira é a necessidade de melhorar os canais de financiamento, não tanto dos parques, mas sim o das pequenas e médias empresas de base tecnológica e inovadoras que aí estão insta-ladas. A segunda coisa importante é a de que os PTC, incluindo aqueles que têm 100% de capital público devem abrir-se a investidores privados que possam aportar o capital necessário à expansão e o desenvolvimento dos parques.
I&E – Quais são os factores de atractividade que um parque tecnológico possui para uma empresa inovadora?
LS - Na IASP lidamos com bastantes dados e pesquisas sobre este assunto, e poderíamos referir muitos factores, que variam de acordo com a região ou o país de que falamos, o sector tecnológico das empresas, a sua dimensão, etc ... Mas, fazendo um esforço de síntese, existem sempre dois factores que são destacados. Em primeiro lugar, o que chamamos de “efeito clube” ou factor de prestígio: as empresas valorizam o poder dizer aos seus clientes e fornecedores que fazem parte do grupo selecto de em¬presas que foram admitidas num parque tecnológico. Precisamente por este motivo, é importante que os PTC mantenham sempre os seus critérios de selecção de empresas em níveis elevados. Quando dizemos que num parque tecnológico não entra quem quer, mas quem pode, estamos a expressar o prestígio de ter sido admitido no parque.
Em segundo lugar, as empresas valorizam a capacidade dos parques onde estão instaladas, na medida em que este facilita o acesso rápido e eficiente a diferentes redes globais. O factor rede é também um dos factores muito valorizados pelas empresas.
I&E – Qual o papel que cabe aos parques tecnológicos como instrumento de dinamização económica e enquanto parte da estratégia de desenvolvimento de um sistema de inovação da região onde se inserem?
LS - O seu papel é determinado pela sua natureza e funções: ser um ponto de encontro dos três elementos do que é conhecido como a hélice tripla, ou seja, Estado, Universidades e Empresas. Os PTC são um magnífico local para que estes três elementos trabalhem e se relacionem, para que os resultados desta colaboração se traduzam em termos de desenvolvimento económico, implantação da economia do conhecimento e melhores oportunidades de emprego.
I&E – Os parques de ciência e tecnologia estão a cumprir o seu papel nessa matéria, nomeadamente no aproveitamento e na potenciação das sinergias entre universidades, as instituições de investigação e o desenvolvimento de empresas de base tecnológica?
LS - Quero acreditar que cumprem dentro dos limites que cada sociedade tem, e que são determinados por uma multiplicidade de elementos e factores, como, por exemplo, as leis, os sistemas fiscais, e também a própria mentalidade dos empresários, académicos e políticos e, finalmente, de cada sociedade. Todos sabemos que há sociedades que inovam mais e melhor do que outras. Mas, para além disso, podemos dizer que existem parques de ciência e tecnologia bons, normais, maus e péssimos, tal como acontece com as Empresas, as Universidades e, claro, com os Governos.
[João Mendes, in Inovação e Empreendedorismo, Maio de 2010]
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